Setembro Amarelo: por que ainda é tão difícil falar sobre o suicídio?

Neste Setembro Amarelo, compartilho reflexões da clínica e da vida sobre o suicídio. Por que ainda temos tanto medo de falar sobre isso? O que está por trás do silêncio que adoece?

Quando comecei a escutar com mais profundidade.

Desde que iniciei meu trabalho como psicanalista, o mês de setembro ganhou outro peso. Setembro Amarelo deixou de ser apenas uma campanha de prevenção ao suicídio para se tornar também um momento de escuta mais ampliada. Não só dos meus pacientes, mas também de mim mesma.

Comecei a perceber o quanto esse tema ainda é um tabu, mesmo nos espaços onde ele mais precisa ser nomeado: dentro das famílias, dos consultórios, das escolas, dos vínculos afetivos.

E é justamente esse silêncio que mais adoece.

Suicídio não começa no ato. Começa muito antes.

Quem chega ao ponto de desejar a morte não passou a vida inteira querendo morrer. Esse desejo costuma vir depois de um acúmulo. De perdas que não foram elaboradas. De dores que ficaram abafadas. De frustrações que se tornaram insuportáveis.

O suicídio, muitas vezes, é a tentativa de silenciar uma dor que não encontra mais escuta.

Falar sobre saúde mental é urgente. E ainda é raro.

Mesmo com campanhas como o Setembro Amarelo, ainda enfrentamos grandes barreiras para falar sobre saúde mental. Muitas delas vêm dos preconceitos sociais, religiosos, morais, que nos ensinam que expressar dor é fraqueza.

E quando esses julgamentos se somam à solidão, ao desamparo e à invisibilidade emocional, o risco aumenta.

A dor cresce em silêncio. E o silêncio, quando não é escutado, pode se transformar em desespero.

O que escuto na clínica: sinais que nem sempre são vistos como pedidos de ajuda

Muitos pacientes trazem queixas difusas:

  • Um cansaço que não passa.
  • Crises de ansiedade sem motivo aparente.
  • Uma sensação constante de não pertencimento.
  • Falta de perspectiva ou prazer.
  • Pensamentos recorrentes de desistência.

Nem sempre isso aparece com a frase “quero morrer”. Mas os sinais estão ali, pedindo para serem ouvidos.

E, muitas vezes, não são.

Prevenção ao suicídio também passa por escuta e acolhimento

A prevenção ao suicídio não depende apenas de dados ou campanhas. Ela começa no cotidiano. Na forma como escutamos e somos escutados.

Isso inclui:

  • Validar o sofrimento do outro, mesmo quando não o entendemos.
  • Não minimizar a dor alheia com frases como “vai passar” ou “isso é frescura”.
  • Criar vínculos reais, em um mundo cada vez mais desconectado.
  • Estar presente, mesmo quando não se sabe muito bem o que dizer.

Como analista, também sou tocada

É impossível não ser tocada por esse tema. Já me perguntei como lidaria com a perda de um paciente por suicídio. Como reagiria à culpa, à impotência, ao não saber.

Sei que não há respostas prontas. Mas o que sei, e sinto, é que precisamos falar mais sobre isso. Precisamos estudar, conversar, trocar, escutar.

Não para encontrar uma “fórmula de salvação”, mas para que possamos estar ali, com menos medo e mais presença.

Setembro amarelo não pode durar só 30 dias

Falar sobre suicídio uma vez por ano não é suficiente. O sofrimento psíquico está acontecendo agora, todos os dias, em silêncio, nos corpos e mentes de pessoas que talvez estejam bem perto de nós.

Não podemos seguir tratando esse tema como algo distante, como se fosse sempre “com o outro”.

Porque, na verdade, ele nos atravessa a todos.

Conclusão: falar pode salvar. E, para isso, alguém precisa estar disposto a escutar

Prevenção ao suicídio também é isso: abrir espaço para que a dor do outro exista. Sem julgamentos, sem interrupções, sem pressa de resolver.

Como psicanalista, acredito no poder da escuta. Mas, antes disso, como ser humano, acredito no poder de estar presente, atento e disponível para quem está ao nosso redor.

Que o Setembro Amarelo nos lembre disso, mas que não nos deixe esquecer quando outubro chegar.

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